Como foi o VIII encontro nacional das Acervas

on 7 de junho de 2013




Aconteceu no último final de semana o VIII Encontro Nacional das Acervas, que engloba o julgamento das mais de 400 cervejas enviadas por cervejeiros caseiros de todo o país, ciclo de palestras de variados temas, passeios e atividades paralelas; isso tudo culminando no grande Encontro Nacional das Acervas: grande confraternização entre cervejeiros, familiares, amigos e interessados em cerveja caseira em geral, com o anúncio dos vencedores do VIII Concurso Nacional das Acervas.

Como esse blog não foi feito para dar notícias mornas e sem personalidade alguma, venho aqui destacar inúmeros pontos das minhas impressões como cervejeiro caseiro, juiz do concurso e turista.  Em primeiro lugar, gostaria de deixar claro que o evento foi maravilhoso.  Foi um final de semana muito bom, pude rever amigos e fazer novas amizades, pude tomar cervejas muito boas e entender a como está sendo a evolução das cervejas caseiras.  Não tive muito tempo para assistir às palestras, mas nas duas que eu fui já deu pra sentir a organização..  O encontro de sábado (festa de premiação) foi excelente, com comida e bebida rolando solta até as 20hrs da noite.

Tendo dito isso, é claro que vou criticar pontos que eu acho que precisam de melhoria.  Podem até parecer bastante, mas essa é a minha visão utópica¹ e que talvez nem sejam tanto tópicos de melhoria, mas de diferentes filosofias com cada particular organização desses eventos..


Parte interna do encontro de confraternização no sábado
  • Gostei muito do ambiente externo do encontro, com tendas a céu aberto, grama, disposição das cervejas, kombi, mesas e cadeiras e o palco.  O espaço interno estava interessante, embora estivesse um pouco tumultuado e sem muito espaço. No entanto, senti que o evento em geral (de quinta a sábado) estava um pouco espaçado demais, sem muito "ponto de encontro" pras pessoas que não estivessem participando das palestras.  Por isso, o meu voto sempre será pra que TUDO ocorra no mesmo lugar, em uma grande convenção, em um hotel por exemplo, mesmo a detrimento de um local aberto/externo.  Uma área social para quem não está assistindo as palestras também seria bem legal, com cervejas caseiras e stands de Acervas sendo servidas para os participantes que não quisessem assistir palestras.  Acredito que os passeios também distanciaram/separaram as pessoas, e sou a favor de eventos noturnos também no hotel/local da convenção, com mais cerveja caseira e confraternização.

  • Uma idéia pro ano que vem é que o ingresso VIP seja dado APENAS aos participantes do concurso.  Eu não sou nada a favor do ingresso VIP, pois isso remete muito a um festival normal de cervejas, onde a cobrança maior sugere a organização querer mais lucro.  Sendo assim, na minha opinião os participantes do concurso deveriam ter acesso às sobras de cervejas selecionadas (todas que foram à mesa final).  É complicado fazer isso, pois são poucas garrafas, mas é algo a se pensar.

  • Tive uma longa conversa com o Tom Schmidlin, representante da AHA, cervejeiro profissional e que julgou o BOS.  Não quero desmerecer o campeão do estilo American Amber Ale, mesmo porque eu estava na mesa final e concordei com a escolha dela para primeiro lugar.  Mas uma de minhas perguntas ao Tom foi "O que você achou da American Amber?" (ele tomou apenas a campeã).  No que ele me responde: "Claro que ela estava muito boa e bem feita, mas estava muito pouco lupulada e com
    várias e várias torneiras...é só escolher..
    baixo corpo.  Nos EUA não ganharia.  Mas mesmo nos EUA existe essa divergência.  Na costa oeste, a ganhadora do estilo IPA não seria a mesma ganhadora se fosse julgada na costa oeste.  Em geral, eu senti que as cervejas de vocês brasileiros estão todas muito secas.  Não sei se é o fermento ou algum outro processo."  Isso me fez rever bastante o meu conceito de cervejas, uma vez que sempre tentei fazer elas o mais seca possível.  Percebi que de uns anos pra cá todas as minhas cervejas estão secas demais, e que tenho que caminhar no sentido inverso e de aumentar um pouco a temperatura de infusão pra deixar mais corpo.  Acho que essa característica seca em todas as nossas cervejas se deve a 3 fatos:
    • Uso grande do fermento US-05, que é bem atenuativo.
    • Costume nosso de fazer rampas, desde 40ºC ou 50ºC, com 2, 3 ou 4 rampas, que no final das contas realmente torna o mosto super fermentável
    • Uso grande de malte pilsen como base.

  • Ainda em conversas com ele, ele destacou o nosso avanço quase exponencial, não imaginava o tanto de cervejas diferentes que iria encontrar aqui.  Achou que ia ser mais para o lado das lagers e tal.  E em relação ao progresso/tamanho de nossa 'convenção' de cervejeiros caseiros, também ficou surpreso com o tamanho e organização.

  • O concurso e o encontro foram realmente muito bons.  Acredito que a parte do concurso foi melhor ainda que a do ano passado.  Pequenos ajustes sempre podem existir, e eu vou tentar passar isso para a Acerva Baiana, mas no geral foi muito bom.  Isso vale também para o evento de sábado.  Muito bom e com bastante cervejas caseiras.  Um detalhe que eu acho que o evento Paulista foi melhor foi em nomear/etiquetar quais eram as cervejas.  Isso facilita muito.  Acho que eu gosto mais mesmo de "stands" com pessoas servindo cerveja ao invés do "self-service" que fizemos em Piracicaba, mas como as cervejas que eram engatadas acabavam muito rápido, era meio difícil/chato ficar perguntando o que tinha pra ser tomado.  Uma lousa grande e uma pessoa pra escrever/trocar resolveria esse problema...

Vista embaixo da tenda na parte externa do encontro
















JULGAMENTO:

Foi feito da seguinte maneira:
4 mesas de amber ale
4 mesas de estilo livre
3 mesas porter
2 mesas saison
2 mesas de vienna

Algumas mesas tinham 4 juízes, meio arbitrariamente, sem muita necessidade, mas se algum juiz faltasse ia ser uma boa ter esses juizes a mais ( o resto das mesas com 3 juizes, com acredito 51 ou 52 juízes no total).

Julgamento da primeira fase
com preenchimento de fichas
O julgamento ocorreu em 2 sessões no dia (manhã e tarde), com cada mesa indo no seu ritmo.  Quinta e sexta-
feira alocados para o julgamento.  Quinta de manhã, por exemplo, minha mesa julgou 7 e fechou uma ficha de vôo.  À tarde mais 10.  E na sexta-feira sobraram poucas amostras, algo em torno de 4 pra nossa mesa...  Uma vez terminada essa fase preliminar, poderia já montar uma mesa Mini-BOS com as finalistas ou poderia entrar em recesso e fazer no período seguinte.  No caso da Amber, foi direto, pois sobrou tempo e tal.  

No caso da saison, que foi o estilo mais pesado, eles precisaram ir mais rápido e estenderam um pouco mais as sessões pra poder fechar as 35 cervejas por mesa (no meu caso eram apenas 23)

Nenhum juiz que eu saiba 'pulou' de um estilo para outro depois de ter acabado uma sessão ou seu estilo.  Todo mundo julgou então apenas um estilo.

No Mini-BOS, as finalistas eram atribuídas em mais ou menos mesmo número por mesa, ie, cada mesa da
Mini-BOS (mesa final) estilo American Amber Ale
amber mandou ~2 amostras, sendo que se uma mesa tivesse 3 notas boas, mandava 3.  Na minha mesa tivemos uma cerveja com média 39 e outra com média 37,3 e ambas foram pra final (a 3ª colocada nem lembro quanto tinha, mas provavelmente estava na casa dos 32 e decidimos não mandar).    A regra geral era que se alguém estivesse em sobre quais mandar, que mandasse mais cervejas pra ela ser reavaliada na mesa final, e se realmente fosse ruim seria descartada.

No Mini-BOS de amber ale, nós tinhamos ~10 amostras que foram colocadas todas juntas na frente de cada juiz.  Avaliamos em silêncio por alguns minutos e depois começamos a falar quais cervejas queríamos eliminar e porque.  Caindo pra um número menor de ~7 ou 6 de amostras, então começamos a degustá-las novamente, aí meio que por ordem numérica, todos juntos e argumentando se ela deveria ficar num grupo menor ainda ou não, e porque....As discussões seguem, com algumas discrepâncias realmente difíceis de se concordar, mas tudo tem que ser consenso.  No final, ficamos então com as 3 primeiras e cada juiz falou de qual mais gostava.  O Bernardo da Aceva Baiana por exemplo, gostou bastante da 3ª colocada (sabemos agora que é o João Belentani) e queria que ela fosse a 1ª.  O Edú Passarelli gostou bastante da 2ª colocada.  Eu e o Edú não queríamos que a 3ª colocada (na hora era amostra 333 ou 331, não me lembro) ficasse em 1º.  E por aí vai.... No final foi bastante consenso que a primeira colocada era primeira colocada, embora ela não tivesse muito aroma de lúpulo, e a meu ver os juízes todos estavam pendendo para amostras mais maltadas que lupuladas (descartaram rapidinho aquela amostra que ganhou 39 pontos da minha mesa e que estava com ótimo aroma de lúpulo e malte e bem clarificada.  Eu notei que ela estava um pouco esterificada demais, mas não sei se concordava tanto em eliminá-la por isso).

Mini-BOS estilo livre
Esse foi outro ponto que a organização pecou:  o de não fazer uma segunda decodificação das amostras que foram pra mesa final.  Elas foram com o mesmo código da mesa inicial pra mesa final.  O resultado disso foi que os juízes que deram nota alta pra uma determinada amostra na fase preliminar de julgamento acabavam por torcer ou tentar "vender" a cerveja deles (que veio da mesa deles) pros outros juízes, justamente porque tinham dado nota alta.  Nos estilos que tinham apenas 2 mesas na fase inicial, ficou quase como uma competição entre 2 mesas, pra ver de qual mesa sairia a vencedora.  E os juízes conheciam ~50% das amostras já....  Com uma decodificação talvez os juízes identificassem uma ou outra cerveja mais marcante, mas não haveria esse pequeno desvio de imparcialidade.  Vale a pena lembrar que isso que eu estou falando de torcer ou "vender" a cerveja da mesa dos juízes é apenas uma percepção minha ao observar uma ou 2 mesas finais.  Não havia má fé de ninguém e todos estavam trabalhando pra escolher a melhor cerveja.   Tem algumas mesas finais que eu nem assisti a discussão, como a do estilo livre, pois seria fácil de identificar a minha amostra se ela estivesse lá, e eu me abstive.

Vou passar pra frente essas observações, mas eu realmente fiquei feliz com as escolhas da categoria amber ale. A porter campeã,  depois de terminada a mesa final,  fui provar e achei que realmente estava excelente (e achei que era minha (não era!), pelo uso grande de lúpulo e amargor e malte equilibrados, com sabores torrados bem presentes), estava bem à frente das outras 2.

Na saison, eu provei as 3 primeiras e não sei se concordo tanto com a decisão dos juízes, pois as 2 primeiras colocadas estavam com aquele toque de lático/funky, que o estilo até permite, mas que eu achei que estavam além do ponto permitido no estilo, e que não necessariamente precisa ter pra ser uma boa saison.  A 3ª colocada pra mim era a melhor cerveja, sem o funky e mais bem feita....

Mas enfim, essas são apenas minhas impressões...




"Saisons ao vento"
Minha primeira vez levantando troféu
 em concursos da Acerva

¹Como cervejeiro caseiro, tenho a visão utópica de um cenário caseiro com mais participação e menos "preocupação com lucros".  A cena artesanal e caseira aqui demoraram tanto pra acontecer, que o novo cervejeiro caseiro começa a produzir e logo já pensa em pular para a profissionalização.  Isso faz com que sejam poucos os que se mantenham no hobby por um longo período de tempo.  Ao invés de trabalharem para uma associação ou grupo cervejeiro, criando kegerators, ajudando em organização, produzindo levas e trocando experiências, investem em planos para nova cervejarias, em discussões sobre legalização e participam pouco.  Uma frase que eu ouvi de um cervejeiro caseiro americano sumariza essa minha utopia: "Nosso hobby é muito gratificante.  No entanto, ele tem a particularidade de que pra se conseguir essa gratificação, precisamos trabalhar e nos engajar muito no que fazemos".  Basicamente não é isso que está acontecendo por aqui.  São poucos os que doam seu trabalho para a gratificação final  (por exemplo a de poder degustar 12 cervejas caseiras ao mesmo tempo de um kegerator feito por um grupo de cervejeiros, ou a de brassar várias cervejas ao mesmo tempo em uma brassagem coletiva onde cada um leva seu equipamento, de ajudar em organização de festival caseiro sem visar lucros, etc..)

3 comentários:

Anônimo disse...

Fala Phil! Legal o texto. Muito bom saber como rolou. E suas impressões são bem pertinentes. Você sabe dizer se vão divulgar os finalistas também?

Abraço!

Phil disse...

Obrigado. Eu não cheguei a perguntar se vão divulgar os finalistas. Sei que eu participei em 4 estilos e vou receber as minhas fichas. Nessas fichas de avaliação que eu receber de volta eu vou saber se as cervejas avançaram para a mesa final ou não. Por isso não perguntei. Na verdade eu fico com dó de dar mais trabalho pra Fernanda (organização), que agora precisa estar relaxando. Mas semana que vem se puder eu pergunto e divulgo os resultados..

Phil disse...

Acabei de ficar sabendo, não vão divulgar os finalistas, mas assim que cada competidor receber suas fichas estará assinalado nas mesmas se a cerveja foi pra mesa final (portanto se ela foi finalista) ou não.

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